sábado, 20 de agosto de 2011

Especial TV CRUJ: Entrevista com Anna Muylaert


Anna Muylaert é uma reconhecida roteirista e diretora que tem seu nome ligado à criação de boa parte dos maiores sucessos infanto-juvenis da TV brasileira, incluindo a TV CRUJ. Uma das responsáveis pelo clássico "Mundo da Lua", produzido pela TV Cultura no início dos anos 1990, Anna também escreveu para o "Castelo Rá-Tim-Bum", da mesma emissora, e nos anos 2000 trabalhou na criação da série "Um Menino Muito Maluquinho", da TV Brasil.

Nesse meio tempo, Anna Muylaert também escreveu e dirigiu curtas e longa-metragens para cinema, como o premiado "Durval Discos" (2002), pelo qual ganhou os prêmios Melhor Filme e Melhor Direção no 30º Festival de Cinema de Gramado, e os mais recentes "É Proibido Fumar" (2009), estrelado por Glória Pires, e "O Ano em que meus Pais saíram de Férias" (2006), dirigido por Cao Hamburger.

Em 1997, surgiu mais um desafio em sua carreira. Junto com Cao Hamburger, com quem já havia trabalhado no sucesso de público e crítica "Castelo Rá-Tim-Bum", Anna Muylaert foi convidada para formatar a versão brasileira do programa Disney Club, que já era sucesso em mais de 30 países, mas precisava ser adaptado para atrair ao público nacional. É sobre este desafio e outros trabalhos de sua carreira que a aclamada cineasta fala agora, com exclusividade, ao Opinião & Opção.

Junto com Cao Hamburger, você foi a responsável pelo que representou o Disney Club no Brasil. Como foi sua entrada no projeto?

Mauricio Tavares da Disney - que era o produtor do programa - conversou comigo e com o Cao e nos convidou para criar o programa.

Quais foram as exigências da Disney quando chamaram vocês para desenvolver o programa?

Nenhuma exigência em particular.

Como surgiu a ideia de formatar o Disney Club brasileiro como uma TV pirata e seus bastidores?

Eu e o Cao conversamos sobre o que poderia ser o programa e como dar charme e conteúdo à coisa e surgiu essa ideia.

É verdade que o termo "ultra-jovem" foi inspirado no livro de Carlos Drummond de Andrade, "O Poder Ultrajovem"? Se sim, qual foi a influência desta obra na formação do Cruj?

Sim, foi. A influência foi direta, o poema fala do poder da vontade da criança e esta é a base da ideia da TV Cruj – as crianças falando por si mesmas.

Na época do lançamento do programa, foi dito que a concepção do formato durou cerca de dois meses. Foi tão fácil assim? Qual foi o maior desafio para chegar ao formato final?

Não quer dizer que seja facil, mas as ideias surgem e você as desenvolve. Não me lembro se foi dois meses, mas foi rapido sim.

E a escalação do elenco, que se encaixou perfeitamente no formato - você também participou nas seleções?

Sim participei, fizemos inclusive focus group com criancas, junto com os executivos da Disney. Eu defendia que o baixinho [Leonardo Monteiro] fosse o principal, mas os americanos preferiram o que acabou sendo.

Até que ponto foi sua participação no desenvolvimento do programa? As cartas dos telespectadores serviam mesmo de inspiração para os roteiros?

No começo usávamos nossas ideias sobre as questões que eles reivindicariam, mas ao longo do tempo as cartas sim foram as inspiradoras da maioria dos nossos temas. Minha participação foi forte, eu criei com o Cao e depois que ele saiu continuei na chefia de criação por mais dois anos aproximadamente. Depois fui fazer outras coisas.

Em 2001, o programa mudou de nome e teve algumas alterações no formato, dando mais destaque para os "bastidores" do que para a TV Cruj em si. Você chegou a acompanhar as mudanças?

Não. A essa altura eu já estava fora.

Antes do Cruj, tanto você como Cao Hamburger vinham de outros trabalhos com o público infantil. O que vocês aproveitaram das experiências anteriores?

Muito. Tudo o que aprendi na Cultura, de trabalhar com consciência em relação a educação da criança eu levei para esse e todos os outros projetos que fiz para crianças até hoje.


Falando nisso, não tem como não destacar seu papel na criação de outros clássicos da TV infantil brasileira, como "Mundo da Lua", "Castelo Rá-Tim-Bum" e mais recentemente "Um Menino Muito Maluquinho", da TV Brasil. Quais foram as principais diferenças de um projeto para o outro? Você acha que o gosto do público-alvo mudou?

O Mundo da Lua não apenas foi meu primeiro projeto infantil como foi o primeiro projeto de dramaturgia, de ficçao que eu trabalhei, então costumo dizer que ele valeu por uma faculdade. Eu diria que aprendi muito, realmente muito ali. E depois de ser mordida por esse bicho da dramaturgia, veio um período em que estudei bastante: Aristoteles, Sid Field, Bruno Behtelheim, Josehph Campbells, etc. O Castelo foi um tour de force porque eram 70 episódios e depois mais 20, então criamos tudo isso, foi equivalente a uma pirâmide e foi a primeira vez que trabalhei com o Cao. Um Menino Muito Maluquinho veio bem mais tarde e eu já tinha outro tipo de maturidade. Em todo caso, em todos os programas sempre trabalho com a visão do “poder ultra-jovem” ou seja ensinar à criança que ela já sabe e que o adulto tem mais a aprender com ela do que ela com o adulto, sabe?

Entre seus principais trabalhos, também há obras voltadas para um público mais crescido, como a série "Alice", da HBO. Dá mais trabalho escrever para adultos do que para crianças?

Acho que ambos dão igual trabalho. Ao pensar no publico alvo, você direciona as ideias.


Você chegou a ser premiada no Festival de Gramado pelo filme "Durval Discos" (2002), e participou da produção de outros longas, como "É Proibido Fumar" (2009), com Glória Pires, e "O Ano em que meus Pais saíram de Férias", novamente ao lado de Cao Hamburger. O que te dá mais prazer: trabalhar com cinema ou com televisão?

Acho que ambos dão prazer se você pode procurar a máxima qualidade. O que eu realmente não gosto é participar de projetos que por motivo de dinheiro ou de pessoal sejam feitos de qualquer jeito, ou mal feitos.

Como é sua relação com o Cao Hamburger hoje? Vocês continuam trabalhando juntos?

Somos amigos, eu fiz o argumento e o primeiro tratamento do ultimo filme dele, O Xingu, que deverá ser lançado no começo do ano que vem. Se vamos trabalhar de novo no futuro, não sei.

Você tem vontade de voltar a trabalhar com programação infantil?

Sim, claro.

Acha que este público é carente de programas de qualidade hoje? Se tivesse oportunidade, o que mudaria no que é feito nas emissoras abertas brasileiras?

Sim, é muito carente. Não se faz praticmanete nada. Se eu fosse convidada por uma TV, eu apresentaria as minhas ideias. Tenho mil ideias e acho que poderia fazer uma faixa de qualidade levando em conta a criança contemporânea, que esta cada vez mais esperta e além disso – com o advento da internet – está auto-didata.

Quais são seus próximos projetos? Alguma coisa relacionada com televisão?

Entreguei alguns projetos infantis na TV Cultura, vamos ver se rola. Tenho tambem projetos de longas-metragens, de telefilme, muita coisa.

O Opinião & Opção agradece pela entrevista, Anna. Em nome de todos os fãs da TV CRUJ, queremos dizer nosso "muito obrigado" por ter participado na criação de algo que marcou a infância de milhões de brasileiros!

Muito obrigado, eu adorava esse programa e fico feliz que seja lembrado. Grande beijo!


Pensa que acabou? Eu não estava mentindo quando disse que esse seria o maior especial sobre a TV CRUJ já realizado! Em breve mais uma entrevista. Aguardem...

4 comentários. Só estou esperando o seu...:

@blogaritmox disse... [Responder]

É de pessoas como Anna que precisamos na tevê brasileira... Estar por trás do Cruj, Castelo Rá-tim-bum e Mundo da Lua ao mesmo tempo, tem que ser muito competente.

Eu percebi que ela foi muito objetiva em alguns momentos, e eu particularmente me incomodo com isso, apesar de ser louvável ela ter topado a entrevista. Mas tudo bem.

A entrevista foi muito boa, parabéns. Estou realmente torcendo para que ela volte à TV com um dos seus projetos.

T. Lessa disse... [Responder]

Parabéns por esse especial, mas completo do que isso é quase impossível!!

André San disse... [Responder]

Ana Muylaert é ótima! Parabéns pela entrevista!
André San - www.tele-visao.zip.net

anna paula muilaert disse... [Responder]

admiro muito o trabalho da Anna, ateh por ser minha charah!!!

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